Entrevista:
Nossa entrevistada é a professora Marineide Carvalho, coordenadora de Educação Inclusiva Possui graduação em Pedagogia, graduação em Letras, especialização em leitura e produção de texto, especialização em Educação Especial Inclusiva e especialização em Atendimento Educacional Especial.
* Como se deu o seu início como professora de alunos com deficiência?
O primeiro contato com estudante com deficiência foi com um
aluno surdo. Ele ia para a minha sala antes ou depois do atendimento
educacional especializado, ele tinha um primo que estudava comigo. Quando eu o
via fazia quase um teatro pra estabelecer a comunicação, ele ria muito de mim,
mas a lembrança mais forte, foi a de que eu queria falar com aquele aluno,
queria entendê-lo, queria saber o que ele achava da minha aula nos poucos minutos
que estava comigo. Nessa escola tinha uma turma com alunos com deficiência, uma
turma Especial e mais três outras turmas, não lembro quais as séries. E eu
disse "quero a turma de educação especial", e as pessoas me
perguntavam "você tem experiência?", você já trabalhou com esse tipo
de aluno? Eu disse para coordenadora na época, muito rigorosa na seleção
daqueles que iriam trabalhar com os alunos com deficiência, "eu tenho a
experiência de um estágio na APAE, ela me perguntou o período e naquele momento,
eu senti que ela ia dizer que eu não podia, então já respondi o período que foi
de apenas um mês, com um "eu quero muito ficar com essa turma".
Iniciei com 5 alunos com deficiência Intelectual e duas alunas com baixa-visão,
uma delas com diagnóstico de perda progressiva da visão, com indicativo para o
uso do Sistema de Escrita Braille). Eu estava pronta para aprender. Não pedi
uma chance para ensinar, pedi uma oportunidade para aprender e sou muito grata
por isso.
*Cite um momento de grande dificuldade e ou outro bem marcante, na sua trajetória como professora.
*Cite um momento de grande dificuldade e ou outro bem marcante, na sua trajetória como professora.
O momento de maior dificuldade foi quando precisei ensinar
Braille e não sabia nada desse sistema de leitura. As meninas estavam ali
comigo e precisavam participar da aula. Texturizar a atividade, explicar muito
bem e fazer as atividades oralmente já não satisfaziam a minha aluna de maior
perda visual, pois ela queria produzir sua escrita, e como todo escritor,
queria analisar o que ela mesma tinha posto no papel. Na mesma época eu estava
cursando a minha segunda graduação e por providência divina, foi oferecida
educação especial, disciplina que eu cursei em Pedagogia, mas quis cursar outra
vez para ajudar as meninas e a mim mesma. Para minha sorte, a professora que
iria ministrar a disciplina era especialista em deficiência visual. Então, eu
estudava e aplicava o que aprendia simultaneamente nas meninas. Uma situação
engraçada que eu não posso deixar de citar é que eu tinha uma estratégia de
ensinar o Braille às alunas fazendo ditados, corrigindo a escrita delas sem
nenhuma guia, para poder forçar a minha memorização dos pontos, mesmo estando
aprendendo também. Entretanto, certo dia, já cansada no final da aula, eu não
conseguia identificar uma palavra que a aluna tinha escrito e trapaceei (segredo
que estou contando só a vocês), eu disse a minha aluna: "quero saber se
você realmente aprendeu, quais são os pontos da letra F?". Ela respondeu,
eu senti segurança na resposta dela, era muito aplicada, e eu completei a
atividade, com o sentimento de que muito ainda precisava buscar.
*Houve alguma mudança importante na sua vida pessoal ou
profissional, a partir dessa experiência com alunos com deficiência?
Todas as mudanças possíveis e imagináveis. Eu era professora de
sala especial em Guaratinguetá e professora de um quarto ano em Aparecida
imagine o que estas duas realidades me proporcionavam de trocas. Foi um divisor
de águas, antes eu tinha o desejo de ser professora e após a minha sala
especial, eu sabia que era professora. Eles me ensinaram ver, enxergar o aluno
por completo, me ensinaram a identificar potenciais, a trabalhar de várias
maneiras, a enfrentar dificuldades. A verdade é que eles me fizeram professora.
*Desde 2009 você coordena a área de Educação Inclusiva. Fale
sobre a atribuição desse órgão e de alguns avanços nos últimos anos.
Quando aceitei o convite, um pouco relutante, feito pelos
secretários, eu como toda e qualquer pessoa que assume algo novo, ansiava por
transformações, acreditava e acredito nas parcerias intersetoriais, e com o apoio
das secretarias de Educação e de Acessibilidade, pensava que tudo ia ser mais
fácil. Avalio que foram grandes as conquistas, mas a maior conquista foi ter
trazido para compor a equipe, pessoas das quais eu conhecia o trabalho,
admirava, e sabia que iam me ajudar muito nessa estruturação. A maior
contribuição que elas me deram, dentre tantas, foi a de me lembrar sempre que
antes de mim, muito já tinha sido feito, e que respeitar as conquistas
anteriores era a melhor forma para outras conquistas, sendo importante para a
minha maturidade.
*Qual é a participação dos pais dos alunos com deficiência, no
atendimento, no acompanhamento?
Divergências extremas. Existe a família que coopera, orienta
sobre seu filho, e existe a família de luto que não aceita e que se sente
agredida quando a escola exige a participação. Precisamos ter bom senso para
ajudá-las a nos ajudar.
*Em sua opinião qual é a posição que deve ter um professor de
classe regular quando este estiver inserido um aluno com deficiência?
Primeiramente acredito que os professores devem reconhecer e
importar-se com esses alunos. Procurando sempre a melhor maneira de interagir
com estes e demais alunos.
* Qual a sua mensagem para nossos leitores, sobre a inclusão social e educacional?
Inclusão social ou educacional é uma atitude frente ao outro. Se
você respeita o outro, você inclui. Se você enxerga no outro você, sabe
incluir. E incluir é o Princípio cristão de amar o próximo como a ti mesmo.
* Qual a sua mensagem para nossos leitores, sobre a inclusão social e educacional?
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